quarta-feira, 24 de março de 2010

O HOMEM E A PALAVRA

Não conhecia o significado daquela palavra. Nem como, quando e porque ela veio parar em sua cabeça. No entanto, não conseguia deixar de repeti-la. Isso já durava anos: se distraía e lá vinha a palavra, não se sabe de onde. Primeiro na mente, depois na boca, para ser deliciosamente pronunciada. Não contava para ninguém, mas achava aquela uma palavra muito bonita.
No começo, pensou em procurá-la em algum dicionário, mas sempre deixava para outro dia. Com o passar dos anos, foi preferindo não procurar mesmo o significado. Temia sofrer uma decepção. Sabe-se lá o que pode andar escondido atrás de uma simples palavra?
Entretanto, havia envelhecido demais. A morte não deveria demorar. Resolveu desvendar o mistério. Foi ao dicionário. Não encontrou a tal palavra. Buscou dicionários mais completos, não estava lá. Procurou em livros de outras línguas, vivas e mortas; foi ver em dicionários de assuntos específicos e nada. Procurou filólogos, lingüistas... Ninguém sequer tinha ouvido falar na tal palavra.
No leito de morte, compreendeu. Ela havia nascido com ele. Somente ele poderia tê-la transmitido a outros homens.
Mas era tarde. Morreriam os dois em poucos minutos.

(Conto do livro Assalto à Cidadela dos Deuses, publicado pela Garamond, em 2003)

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