quinta-feira, 25 de março de 2010

Trecho (quase) final de tese de doutorado sobre obras de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst.
(...) Sabíamos que falharíamos e falhamos. Caminhar pelos textos de Hilda Hilst e de Caio Fernando Abreu era percorrer uma estrada tortuosa, ainda que fascinante, sem garantias de chegada ou de abrigo. Hilda e Caio não nos enganaram jamais com falsas promessas. Seus textos nos preveniram, ao longo da travessia, sobre o fracasso inevitável que acompanha toda tentativa de abarcar qualquer aspecto do real, mesmo os mais simples, através de nossos precários recursos discursivos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A DESCONHECIDA


Hoje eu te vi
na manhã nublada
e ficou tua sombra
deitada
na calçada
de meus olhos.

Que mais?
Mais nada...

(Do livro Assalto à Cidadela dos Deuses, publicado pela Garamond, em 2003)

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O CROCODILO DO NILO


o rio passa
eu permaneço
tudo tem fim
e eu
– enfim! –

começo

(Poema de meu novo livro O rio Nãoseioquê que nasce não sei onde, em breve publicado pela Corpus/WAF) . O texto de todo o livro está no link: http://www.4shared.com/dir/34716657/182668e1/sharing.html
Estou aqui para cometer um crime. Quem me vê caminhando feito um desmiolado, pelos carpetes coloridos da Bienal, em meio ao burburinho, “o diabo na rua, no meio do redemunho...”, citando Grande Sertão e cantarolando a lendária canção de Belchior, apesar da barulhada insuportável que fazem as legiões de estudantes e mães e professoras zelosas, não pode imaginar que eu estou aqui para matar uma pessoa.

(Trecho do romance policial inédito Rocambole de carne à Copacabana, escrito a seis mãos por Cláudio Carvalho, Luís Carlos de Morais Junior e Cid Prado Valle).

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1. Comece desistindo de enriquecer a literatura. Seja humilde. Abandone veleidades literárias, filosóficas, humanitárias e toda espécie de arrogância intelectual. O Reino dos Céus é dos pobres de espírito. E o cume das listagens de livros mais vendidos da semana é o mais perto que um escritor pode estar do Reino dos Céus.

(Aforismo n.º 1 do Opúsculo: COMO ENRIQUECER COM LITERATURA – 100 aforismos tão fáceis que até você pode entender e praticar. Publicado na Revista Tecnogaia, sob o pseudônimo de Prof. Dr. Luiz da Costa)

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Prof. Dr. Luiz da Costa.
O HOMEM E A PALAVRA

Não conhecia o significado daquela palavra. Nem como, quando e porque ela veio parar em sua cabeça. No entanto, não conseguia deixar de repeti-la. Isso já durava anos: se distraía e lá vinha a palavra, não se sabe de onde. Primeiro na mente, depois na boca, para ser deliciosamente pronunciada. Não contava para ninguém, mas achava aquela uma palavra muito bonita.
No começo, pensou em procurá-la em algum dicionário, mas sempre deixava para outro dia. Com o passar dos anos, foi preferindo não procurar mesmo o significado. Temia sofrer uma decepção. Sabe-se lá o que pode andar escondido atrás de uma simples palavra?
Entretanto, havia envelhecido demais. A morte não deveria demorar. Resolveu desvendar o mistério. Foi ao dicionário. Não encontrou a tal palavra. Buscou dicionários mais completos, não estava lá. Procurou em livros de outras línguas, vivas e mortas; foi ver em dicionários de assuntos específicos e nada. Procurou filólogos, lingüistas... Ninguém sequer tinha ouvido falar na tal palavra.
No leito de morte, compreendeu. Ela havia nascido com ele. Somente ele poderia tê-la transmitido a outros homens.
Mas era tarde. Morreriam os dois em poucos minutos.

(Conto do livro Assalto à Cidadela dos Deuses, publicado pela Garamond, em 2003)

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FEBRE. Infância. Madrugada. Pés no chão frio. Mãos percorrendo, no escuro, paredes geladas. É preciso cruzar o corredor para chegar ao banheiro. A pouca luminosidade da sala vaza da luzinha vermelha, acesa no coração ferido de Jesus Cristo. Sorriso tranqüilo do Deus louro de olhos azuis. A mão sangrando ameaça: de dois mil não passará. Branco. Finalmente, o banheiro e seu azulejo. Branco de doer. A luz torna mais nítida a febre. Tudo ameaça se diluir em branco. Entra a mãe, mão na testa: o menino tem febre. A fantasmagoria toda é só ilusão da febre. Logo, o Melhoral irá diluir o peso do Sagrado Coração de Jesus. A mãe carrega o menino medicado no colo. Irá dormir entre ela e o pai.

(Trecho do romance, escrito há muitos anos atrás e inédito: Enquanto a Classe Média come Pizza). Para baixar versão integral, clique aqui: http://www.4shared.com/dir/34716657/182668e1/sharing.html
Acredite, por favor, no que digo: é sempre impossível voltar para casa. Estamos todos condenados a um eterno degredo. Por isso sonhamos, tomamos atitudes insensatas (como oferecer todas as nossas horas restantes a desconhecidos), nos apaixonamos e imaginamos detalhadamente, com requintes de crueldade, cenas de fuzilamento. Somos estrangeiros em nossos próprios corpos, em nossas próprias almas e neste girante planeta insignificante onde outros corpos e almas também estão aprisionados pela força da gravidade.
Por isso, quanto menos gravidade tivermos, ao considerarmos nossas próprias circunstâncias e limitações, melhor. Já pesa demais sobre nossos ombros mortais a violência de um degredo absurdo. Ou seria a absurda violência de um degredo?

(Trecho do romance inédito Ø ou Porque é tão fácil perder guarda-chuvas e quase sempre impossível recuperar a inocência perdida. )

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O RIO NÃO-SEI-O-QUÊ QUE NASCE NÃO SEI ONDE


O rio Nãosseioquê
que nasce em Nãosseionde
esconde:

uma panela velha, um degredo, um bonde, memórias de meu segredo, um medo...
Aonde? Aonde?

O rio Nãosseioquê
que nasce em Nãosseionde
revela:

um olhar da janela, uma vela, a foto dela já amarela, um anjo, um beijo de novela...
Estela! Estela!

O rio Nãosseioquê
que nasce não sei onde
revela, esconde, revela, esconde, revela, esconde, revela, esconde, revela, esconde, revela, esconde, revela, esconde, revela, esconde, revela, revela, esconde, revela, esconde, revela...

(Poema que dá título a meu novo livro. O texto de todo o livro está no link: http://www.4shared.com/dir/34716657/182668e1/sharing.html )

terça-feira, 9 de março de 2010

LÍNGUA DA TERRA

Quero tornar públicos meus textos (poemas, prosa, reflexões teorias...). Desde muito cedo, menino cheio de fantasias e fantasmas, eu achava que seria um escritor. Todos os meus outros interesses e atividades derivam desse interesse inicial pela palavra e, depois, pela palavra escrita. Sempre preferi a versão aos fatos. Sempre desconfiei que o que chamamos de “fato” é apenas a nossa “versão”. Antes de ler os poemas de Manoel de Barros, eu já sabia que apenas dez por cento do que dizia era mentira e que os outros noventa por cento era imaginação mesmo.
Demorei a fazer um blog ou coisa parecida porque ainda mantinha uma visão algo romântica do veículo “livro” e uma perspectiva um tanto burguesa de minha atuação autoral. Hoje, em torno dos cinquenta anos, espero estar aprendendo a lidar melhor com a finitude. Sou escritor enquanto escrevo, não enquanto publico, fico famoso ou ganho dinheiro com isso.
Meu objetivo é postar aqui tudo o que escrevi, tenha eu publicado ou não. Quero também postar textos e imagens e idéias e sons que não foram criadas por mim, mas que despertaram meu interesse e que podem também interessar àqueles que são iguais a mim, muitos dos quais não conheço, mas que amaria e que me amariam, se nos conhecêssemos. Se encontrar tempo, pretendo até digitar textos produzidos antes de o computador pessoal fazer parte de nossas vidas. Serão, talvez, para aquele que sou hoje, textos de alguma forma ingênuos e/ou superados, mas, quem sabe, aquele que sou hoje é que é ingênuo e superado.
Um outro resultado interessante que busco com o blog é romper com um comportamento esquizóide que caracterizou, até recentemente, meu comportamento público. Sempre fiz questão (hoje, reconheço, de forma equivocada) de separar cuidadosamente o “escritor/poeta” do “professor/profissional”. Eu usava até nomes ligeiramente diferentes. Eu era o Profº. Luiz Cláudio e o escritor Cláudio Carvalho. O resultado, eu acho, é que essas duas minhas facetas acabavam perdendo substância e verdade: o “professor” virava um “burocrata” e o “poeta” um “porra-louca”. No espaço desse blog, pretendo postar textos que sejam de interesse didático e textos literários, sem fazer distinção. Espero, apenas, que sejam úteis ou inutilmente interessantes.
Escolhi o nome Língua da Terra (que originalmente é o glossônimo pelo qual os espanhóis, entre os séculos XVI e XVIII, se referiam ao vernáculo do Novo Mundo) porque meus textos (teóricos ou literários) têm sempre algo de bárbaro. Não sou exatamente um europeu civilizado. Minhas raízes afro-indígenas fazem de mim, quando muito, apenas mais um “mestiço neurastênico do litoral” que teve a sorte de estudar um pouco. Também gosto das muitas conotações eróticas e telúricas contidas no nome: Língua da Terra. E, é claro, eu queria um nome que chamasse a atenção de pessoas, como você, interessadas nessas coisas de línguas, palavras, letras, idéias...
Apesar das bandeiras, das religiões, das fronteiras, das identidades... Somos partes pequenas de um grande organismo (que alguns chamam Gaia, outros chamam Terra) e nossas vozes todas falam, no fim das contas, uma única língua: a Língua da Terra. Quero deixar aqui um pouco de minha voz.